Um vídeo que viralizou diz que uma pessoa usou IA para clonar o pacote inteiro da Adobe e que ele está de graça para qualquer um baixar. Uma parte disso é verdade. Outra parte é exagero.
Um aviso antes: o desenvolvedor diz que construiu o software com o Claude, da Anthropic, e o Ctrl + Alt News também usa o Claude como assistente editorial. Mantivemos este texto no que as reportagens dizem e no que não conseguimos confirmar.
O que existe
O desenvolvedor é Brandon Thomas, engenheiro que diz ter 15 anos de experiência e cerca de uma década de Rust. Ele está criando o Artcraft, um conjunto de substitutos gratuitos e de código aberto para sete aplicativos da Adobe, escritos em Rust. A TechSpot os lista como Photocraft (Photoshop), Vectorcraft (Illustrator), Filmcraft (Premiere), Lightcraft (Lightroom), Effectcraft (After Effects), Designcraft (InDesign) e Printcraft (Acrobat Pro).
Ele diz que usou o Claude Opus 5.5 para construí-los. O código pode ser baixado, alterado e receber contribuições, e ele diz que um negócio separado de venda de tokens de IA ajudará a pagar o trabalho.
O que o README do próprio projeto diz
O PhotoCraft, o clone do Photoshop, está no GitHub. O README o descreve como uma reimplementação “clean room” do Photoshop em Rust puro, feita “a partir de especificações públicas e do comportamento observado”, sem código nem ativos proprietários. Ele tem o status “early alpha” (alfa inicial) e diz que ainda “não é um substituto do Photoshop para o trabalho profissional diário”. Também diz que não tem vínculo, patrocínio nem aval da Adobe, e que a licença é dupla, MIT ou Apache-2.0. A página mostra cerca de 72.400 estrelas, sem a data dessa contagem. Ela não menciona o Claude.

A continuação com o Office
Thomas lançou depois três apps que imitam o Microsoft Office, segundo a TechSpot: o WordCraft (Word), o GridCraft (Excel) e o DeckCraft (PowerPoint). Eles leem e salvam os arquivos .docx, .xlsx e .pptx de sempre. O WordCraft roda no Windows, macOS, Linux e BSD, e também no navegador, a partir de uma única base de código em Rust. A licença é MIT ou Apache 2.0.
Os números de completude são do próprio desenvolvedor. Ele diz que o WordCraft cobre cerca de 88% dos comandos da faixa de opções do Word, o GridCraft cerca de 89% dos comandos do Excel e 98% de suas funções de planilha, e o DeckCraft 79% de 191 recursos do PowerPoint. No geral, ele estima cerca de 60% de paridade, com o GridCraft cerca de 50% “pronto para trabalho real” e o DeckCraft cerca de 55%.
Está pronto?
Não muito. A TechSpot diz que os apps do Office estão em alfa e ainda em “um estágio relativamente inicial”. Os primeiros usuários dos clones da Adobe relataram problemas com funções básicas. A Vice, que repassou testes de outras pessoas em vez de fazer os seus, diz que as ferramentas “parecem de fato com as da Adobe”, mas são “incrivelmente instáveis”. O próprio Thomas primeiro disse que chegaria a 100% de paridade em um mês, e depois disse no Hacker News que 99% levaria meses.

A alegação de “clean room” e as dúvidas jurídicas
Thomas descreve o trabalho como uma reescrita “clean room”: feita a partir de especificações públicas de formatos de arquivo e do comportamento observado, sem copiar o código da Adobe. Essa é a posição dele, não uma conclusão jurídica. A Vice chama o software de “legalmente duvidoso” e especula que os advogados da Adobe possam agir.
Não achamos declaração da Adobe nem da Microsoft, e nenhum relato de ação judicial. Não temos parecer jurídico, então não podemos dizer se copiar interface ou atalhos é permitido.
Por que ele fez isso
Thomas diz que as tarifas de cancelamento da Adobe fizeram parte da motivação. Em junho de 2024, o governo dos EUA processou a Adobe por tarifas de cancelamento antecipado supostamente escondidas. Em março de 2026, a Adobe fechou um acordo de US$ 150 milhões, sendo US$ 75 milhões em multas e US$ 75 milhões em serviços gratuitos, negando irregularidade, segundo a TechSpot.
O que o vídeo viral exagera
O vídeo diz que uma única pessoa “clonou” o pacote inteiro. O que as reportagens sustentam é mais estreito:
- Um desenvolvedor, com um modelo de IA, publicou código gratuito de aplicativos que imitam os da Adobe e da Microsoft. Isso é verdade.
- São programas em alfa, com falhas, e os números de completude vêm do desenvolvedor. “Clonou” é exagero.
- O vídeo diz que os advogados das empresas devem estar desesperados. Não achamos reação de nenhuma das duas.
- O preço de “quase 400 reais por mês” e os “bilhões” gastos não são números que conseguimos verificar.
O que acompanhar
As perguntas são práticas. Os apps abrem seus arquivos reais sem perder gráficos e layouts? Continuam sendo mantidos? A Adobe ou a Microsoft vão reagir? Por ora, trate-os como projetos para acompanhar, não como substitutos do que você usa no trabalho, e não instale software que você não conferiu. Para mais sobre agentes de IA fazendo trabalho longo e autônomo, veja nossa reportagem sobre os agentes Gemini 4 que zeraram o Minecraft e sobre o Claude Duet, da Anthropic.





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